Quimeras¹ nossas.
Levianas, não se farão concretas, serão como o mar, que é infinito. Mesmo que te banhes nas vagas, as imensidades lhe serão alheias.
Mesquinhas, corroerão teus desejos, para que do teu banzo, possam eclodir novos ovos de novas quimeras. Propagam-se nas feridas que outras antes fizeram.
Ademais, serão teu ópio, teu baluarte, teu sangue e carne e santo graal.
Estarão toda a tua vida contigo.
De tuas quimeras ancestrais e mesquinhas,no fim, não cora de ombrear-te a única mais egoista e autruísta: A do sonho de amor.
Esta te velará no leito de morte, te levará para além do vau mundo, além da orbe celeste.
Mesmo que seja pó, ou cinza fumegante, esta [que tampouco torna-se concreta, assim como suas irmãs] estará contigo e estará em ti.
De carbono e quimeras, somos feitos... Navegantes do impossível sem saber que é, do alheio sem o ver, do imponderável sem ponderar. Não temos escolhas mais rasoáveis:
-Sonhemos.
(João do Mar)
¹A palavra quimera, por derivação de sentido, significa também o produto da imaginação, um sonho ou fantasia utópica
Pergunta retórica.

Vagueia Borboleta translúcida
Pelos tedos de natal enfeitiçados
Vaga, mais solitária que a vida
Voando por telhados e telhados
Quem não quer, numa dor que desatina,
(Menos dor de coração arruinado)
Ter a musa que o engenho ilumina?
Ter de volta a poesia do seu lado?
Tenho na broboleta, lógica indefinida,
Perguntas que nunca cessarão.
Tenho beijos da poetisa e suicida!
Tenho tardes corajosas de verão!
Só não tenho a resposta mais querida,
Que a vontade me corroe toda a razão:
No coração, quanto dura uma ferida?
Quanto se pode aguentar a corrosão?
E mesmo as dores de chaga tão pequenina,
Nunca sararão?
(Zé Gabriel F.)
Beltane.¹

Amor meu, a noite se joga, suicida, do alto azul
Sejamos como ela, renitentes em nossas promessas
mesmo que a falsidade dos vinhos corram em nossas veias
Nos lançaremos sem saber que a noite será força extasiante.
Deitarei o sol em teu regaço, ateando o fogo áureo em tuas pernas
Transformando teus seios em raios cálidos de meio-dia
E, ofegantes, derramaremos a lentidão de nossa cama de pedra
E, ofegantes, seremos noite, ungida de misticismo e branda
Lembrarei de quando te fiz Deusa no meu inverno
e quando nua, andava pelas imensidades, fazendo verão
aquecendo meu universo com tua luz tremeluzente
E tua paixão poênte e dourada.
Será tua silhueta noturna minguante e branca a medida da eternidade
dançarei tal qual o sol, no céu profundo de tua boca perfumada
E beberei a luz dos teus seios, e seremos eclipse, e serei estações bailando ao teu redor
mas no fim, anoiteceremos.
¹Beltane é um festival de civilizações pagãs na região das Ilhas Britânicas reconhecido nas comemorações da Festa da Primavera.
O beltane é o mais alegre dos Sabbaths, onde as mulheres pagãs usam coroas de flores e todos dançam ao redor da fogeira.o Beltane é um festival da fertilidade, simbolizando a união entre as energias masculina e feminina, onde os pagãos comemoram o casamento dos Deuses. Durante o festival, eram acesas fogueiras nos topos dos montes e lugares considerados sagrados, sendo um ritual importante nas terras Celtas.
E como tradição, as pessoas queimavam oferendas como, por exemplo, totens ou animais para que o poder do fogo fosse passado ao rebanho e, pulavam as fogueiras para que se enchessem das mesmas energias poderosas.
Representa o início do Verão e marca a morte do Inverno, sendo comemorado com danças e banquetes.
Paradoxo
-Há veneno no jardim?
Será verdade?
Qual é o porquê desta necessidade?
-Há veneno no jardim.
Que crueldade!
Porém as flores não morrerão de vaidade.
-Há veneno no jardim...
Que solução!
Cercarei de veneno o meu peito
E será um escudo bem perfeito
Para as flores do meu coração!
-Há veneno no meu peito...
Que triste fim!
Enganei-me tentando me cercar...
Afastei quem queria me amar...
Que Ficasse este veneno no Jardim!
(Poesia campeã no concurso de poesias do Instituto Olavo Bilac-2005)
Será verdade?
Qual é o porquê desta necessidade?
-Há veneno no jardim.
Que crueldade!
Porém as flores não morrerão de vaidade.
-Há veneno no jardim...
Que solução!
Cercarei de veneno o meu peito
E será um escudo bem perfeito
Para as flores do meu coração!
-Há veneno no meu peito...
Que triste fim!
Enganei-me tentando me cercar...
Afastei quem queria me amar...
Que Ficasse este veneno no Jardim!
(Poesia campeã no concurso de poesias do Instituto Olavo Bilac-2005)
Cordel prá morar na lua

Ô madrinha que dança de noite
com seu sonho-de-valsa-estrelado
com seu lume de prata gelada
se tivesse o lume dourado
do padrinho da minha alvorada
mas só dança é na madrugada
e no escuro tristonho vai indo
sem querer vai subindo, subindo
e o homem que é bom vai dormindo
Ô madrinha que não tem platéia
vai no escuro valsando tristinha
Ai coitada da minha madrinha!
que só tem uns poetas lhe vendo
E mendigos de frio tremendo
se eu for o bastante dindinha
lhe escrevo sonetos brilhantes
lhe dedicos mil versos-amantes
Faço escada té aí ô madrinha
onde Jorge fez sua moradia
Tomo um porre com Jorge Gerreiro
Monto ingreja, mesquita, terreiro
faço em ti o que é bom e humano
mas eu volto no início do ano
pois o carnaval é em fevereiro!
(João do Mar)
[A]gosto Amargo

Quando o vento dá um nó
quando a rua junta pó
e a chuva traz a lama
Quando a fruta temporana
apodrece no cipó
Quando a vida é mais viril
Quando há fogo no pavio
Quando nasce toda Ana
Quando ganha o homem vil
E o leão tomba na savana
Quando a noite é mais escura
Quando nasce a amargura
quando encolhe a imensidão
quando o ar é de secura
Quando seca o ribeirão
Quando o gosto é tão amargo
quanto o café que eu trago
Quando vejo, nem me lembro
Quero é que que o vento largo
me carregue prá setembro.
(Zé Gabriel F.)
A estranha da fotografia

Hoje sinto a ausencia do apego
não me lastima a ausência
ela é em mim tão presente, essência minha, tesouro meu.
e até mesmo o rosto que sorri nos retratos
me é estranho
é tão estranho...
se sorrias antes, me lançava por vontade ao abismo do ' te amar incondicionalmente'
hoje, quando sorri
não a reconheço
É alheio para mim
teu sorriso, teu gesto de despreso, tuas quimeras mesquinhas
Não a reconheço, não consigo lembrar de ti.
Alguma coisa em mim me grita:
- é ela! aquela de antes!
Mas meus olhos não te distacam mais da multidão
se antes decorava teus gestos e sorrisos
hoje me são estranhos
és alheia, és estranha, simplória, detalhe.
Mas se antes dedicava-me a te reconhecer em tudo e em todas
hoje não sei quem és
e hoje, não faço mais questão.
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